De Jovens a Adultos – O problema moderno da iniciação masculina.

A partir da reportagem exibida no dia 01 de março de 2015 (segue o link: http://glo.bo/1AZjBCH)  sobre o acampamento militar que teria por objetivo “educar” crianças e adolescentes tidos como “sem controle” pelos próprios pais, venho elucidar algumas questões sobre o contexto atual dos pais, o que se espera desta prática, suas limitações e qual a sua importância para o desenvolvimento da personalidade de cada indivíduo, bem como ampliar este fenômeno às suas raízes arquetípicas, ou seja, conectar o fenômeno com seus correspondentes históricos que enquadram esta técnica na herança psicológica humana.

Gostaria de dizer que esta maneira como funciona o acampamento e seus propósitos, assim como a forma como irei descrever se referem ao amadurecimento de homens e a aplicação em meninas não me parece adequado, embora nossa sociedade muitas vezes exija do gênero feminino as mesmas atribuições do gênero masculino.

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Imagem da reportagem exibida pelo Fantástico. Mostra como através do sofrimento físico e mental esperam que o jovem amadureça e estimule a sua consciência.

Primeiramente gostaria de me posicionar e explicar o primeiro erro, a meu ver, quando se dirigem a esta prática reportada como “educação”. Não acredito que a sociedade produzindo estes acampamentos aos moldes militares estejam buscando alguma espécie de educação, me parece que o que buscam é uma experiência que transforme a personalidade de seus filhos, esta que foi construída lentamente e a qual os pais, familiares e sociedade contribuíram enormemente na sua constituição. Não pretendo com esta afirmativa menosprezar o caráter individual da personalidade destes jovens, porém não quero apenas responsabiliza-los.

Este tipo de experiência transformadora, que tem por objetivo adequar o jovem e seu comportamento naturalmente transgressor, anormal ou (eu prefiro assim) destoante das expectativas sociais e parentais. É uma esperança de que seu filho passe por um ritual de iniciação ao mundo adulto e não uma prática educativa, que na verdade como prática educativa este acampamento não se enquadraria nem por falta de opção melhor e para isso nem precisaria citar autores como Paulo Freire pare embasar esta opinião.

Um ritual consiste em uma experiência tão poderosa, que mobilize a psique da pessoa de tal forma que apenas por passar por ela a pessoa galgue um novo degrau no desenvolvimento de sua personalidade. Este ritual é vivido e não explicado ou ensinado, fala diretamente a alma e não ao intelecto por assim dizer, ele não pode ser projetado e sim concebido, devendo nascer às inspirações daquela sociedade e não do raciocínio de uma pessoa.

Entrando mais propriamente para a situação do acampamento militar, o que perturba tanto a sociedade, divide opiniões entre leigos e assusta os intelectuais? Ora, primeiramente este não é um ritual e sim um pseudo-ritual, ou de maneira mais coloquial, uma tentativa desesperada. O ritual tende a adequar aquele individuo ao o que aquela sociedade em específico elege como alto valor. López-Pedraza (2012) diferenciou duas formas de iniciação de duas sociedades gregas, sendo elas Esparta e Athenas. A primeira por possuir caráter predominantemente bélico, levava as crianças com cerda de 07 anos, açoitavam os jovens diante do altar da Deusa que personificava o motivo daquela iniciação, no caso Ártemis, já em Athenas as crianças na mesma faixa etária encenavam um teatro. Com isso pode-se entender que a sociedade exaltava os atributos que mais lhe interessavam, sendo este ritual aos 07 anos uma iniciação do filho a norma comum da sociedade, não é por acaso que comumente nesta mesma idade as crianças ingressam ao ensino formal, ou, fundamental, onde muitas fracassam com dificuldades de aprendizagem (isto já é assunto para outro momento). Com isso quero dizer, que adequar a personalidade da criança à expectativa social e parental é comum à humanidade e feito até os dias de hoje. Contudo, é incrível semelhança dos ideais espartanos com o do tal acampamento, ideais estes que são a resistência diante a dor, disciplina e hierarquia militar. Lembremos que através das guerras mundiais que os Estados Unidos conseguiram ergues seu império econômico.

No que concerne às crianças mostradas na reportagem é isto com que tenho a contribuir. Quanto aos jovens? De que maneira feri-los fisicamente seria interessante? Levar o jovem a exaustão física e mental como método de amadurecimento não é novidade na humanidade e sim, cumpre um papel importante. O problema nisto tudo é, o ferimento não pode ser deliberado e também não pode ser a única ferramenta para que o amadurecimento psicológico seja possível. Robert Bly (1991) adverte que uma iniciação a masculinidade e a vida adulta através apenas dos pressupostos da humilhação, provação física, competição e violência são extremamente desvantajosos, embora cubram um parte da personalidade masculina, não conseguem promover um amadurecimento completo da personalidade e a pessoa passará a educar os mais novos desta forma, além de reger sua vida sobre estes mesmo valores.

Se ser homem não significa apenas demonstrar força, resistência a dor, disciplina, capacidade para humilhar e competir, o que mais significa? Gillette & Moore (1993) compreendem que o homem possui prioritariamente quatro atitudes que repousam sobre a base histórica da humanidade e quando funcionando em conjunto e de maneira adequada resultam em um homem maduro. Dentro destas quatro formas de funcionamento masculino a única exaltada pelo acampamento é a do Guerreiro, uma vez que ela não representa a totalidade da personalidade do homem, ela não pode significar o único ponto de apoio que o garoto deve ter para encarar a vida e os problemas que nela irão surgir através dela.

            De que maneira se pode então, despertar os potenciais dos meninos de maneira completa, para que se tornem de fato homens adultos e maduros?

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Os garotos dessa tribo devem permanecer longe da comunidade até que a tinta deixe o seu corpo. Simboliza o renascimento, até que isso aconteça eles não existem.

            Hollis (2004) descreveu quais eram as etapas de um ritual nas sociedades primitivas e como cada etapa correspondia com um aspecto a ser desenvolvidos pelo garoto e o insira no mundo artificial, econômico, cultural, social juntamente com a autossuficiência do adulto, são elas: Separação – física dos pais, para que assim se inicie a separação psicológica dos pais, ou seja, ele era raptado ao meio da noite com violência e rudeza, pois a renúncia ao conforto e proteção exige grande impulso e não será facilmente aceita; Morte – era feito um ritual em que o jovem simulasse uma morte, uma experiência aterrorizante que presentava a morte da sua infância, de sua inocência e de sua dependência,  agora não mais poderia retornar a esta fase em busca de proteção; Renascimento – após existia uma cerimonia de renascimento, com mudança de nome, mostrando que agora ele é um novo ser, adulto; Ensinamentos –  um homem mais velho e já iniciado levaria o jovem até um local sagrado e lá transmitiria os valores, os conhecimentos necessários de suas funções a serem desempenhadas, as suas responsabilidades para com o  seu povo e sua responsabilidade para com o criador do mundo o inserindo na esfera espiritual , ainda era ensinado as leis a ética e a histórias de seus povo, todos estes atributos são assimilados e agora o jovem passa a ser corresponsável com a manutenção e proteção deles; Provação –  era uma tarefa que levava ao sofrimento físico, emocional ou espiritual aquele jovem, como se instintivamente se soubesse que apenas através dele se estimula a consciência e através deste sofrimento na carne ele se prepararia para o rigor que a vida adulta exige e a força que ela baterá. Esta tarefa deveria ser desempenhada e vencida pelo jovem, ele mobilizaria todos os seus recursos interiores e exteriores de maneira criativa e então poderia tornar-se de fato adulto; Retorno – o jovem era reintegrado a sociedade, agora como um homem.

Falhas neste processo, por exemplo, na morte e na impossibilidade de desempenhar uma atividade como na provação acabam por ser contribuindo para o abuso de drogas por parte de muitos jovens, como explicou Zoja (1992).

             Por que não é mais possível este tipo de preparação a vida adulta atualmente? E onde os pais se encaixam nisso tudo?

            Nas sociedades em que vivemos foram abolidas estas práticas ou atenuadas em grandes escalas por diversos  motivos, porém tentativas surgem em todo o mundo, como este acampamento da reportagem, portanto isto é da natureza humana e não podemos fugir disso. Já o problema dos pais é um tanto mais complicado, pois eles também não passaram por uma preparação a vida adulta e acredito que todos concordem comigo neste ponto, os pais estão completamente perdidos em seus papeis e em como desempenha-los. O excesso de intromissão do estado, o excesso de psicologização da educação dos filhos, a própria falta de tato e imaturidade parental, além da conjuntura de nossa sociedade que é altamente complexa faz com que a bola de neve cresça cada vez mais. Realizei um trabalho com um grupo de pais de crianças com problemas de aprendizagem e a experiência foi rica para entender em que pé está a compreensão dos pais sobre o quanto eles realmente estão cientes da problemática que lidam todo o dia e também atendendo estes filhos foi possível perceber o papel que a criança ocupa em meio a esta confusão.

Importante nesta hora é saber que as instituições não ensinaram os nossos filhos sobre suas emoções, sobre como lidar com seus conflitos internos, ou seja o mundo interno de uma forma geral está desconhecido para grande parte da população. Se você não conhece o seu funcionamento interno provavelmente se tornará vitima deles. Assim conforme acumulamos conhecimento sobre o mundo externo e as intuições se encarregam de ensina-las, não sabemos nada sobre nossa realidade mais íntima. Se não existe convenções sociais para garantir que o jovem tenha profundidade existencial suficiente para amadurecer então nossos filhos estão totalmente a mercê de seus conflitos e de seus sintomas. E você pai e mãe, conhece esta realidade a ponto conseguir oferecer apoio e desenvolvimento ao seu filho?

Referências:

BLY, Robert. João de Ferro: um livro sobre homens.Campus, 1991.

HOLLIS, James. Sob a sombra de saturno: a ferida e a cura dos homens. 2ª  Ed. São Paulo: Paulus 2004

MOORE, Robert; GILLETTE, David. Rei Guerreiro Mago Amante: a redescoberta dos arquétipos masculinos. Rio de Janeiro: Campus, 1993.

ZOJA, Luigi. Nascer não basta: iniciação e toxicodependência. São Paulo: Axis Mundi, 1992

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